4# ECONOMIA 22.1.14

A CAIXA-PRETA DA CAIXA
Controlada exclusivamente pelo governo, a CEF vem sendo usada com fins polticos  e isso tem um preo alto que um dia ter de ser pago.
MARCELO SAKATE

     Os governos gozam de um privilgio perigoso: fabricar dinheiro. Nos perodos de recesso forte os governos podem  e devem  abrir a torneira de liquidez monetria para tentar reanimar a atividade econmica. Perigoso por qu, ento? Porque imprimir dinheiro no significa criar riqueza. Se errar a mo e imprimir mais dinheiro do que a economia precisa para funcionar, o governo arrisca-se a criar uma bolha inflacionria  que nada mais  do que o aumento artificial dos preos pelo excesso de liquidez no mercado. Nos ltimos anos, em reao  queda no ritmo de crescimento do PIB, a equipe econmica de Dilma Rousseff resolveu elevar o volume de crdito como forma de incentivar o consumo e, assim, dar um empurro na economia. No funcionou. Nem podia. Os nmeros mostram que nos ltimos dez anos o consumo dos brasileiros aumentou 115%, enquanto, no mesmo perodo, a indstria nacional cresceu apenas 20%. No  preciso ser um gnio para ver nessa disparidade o retrato de uma poltica econmica que se equivoca em incentivar o consumo, quando o gargalo est na produo. No se resolve com mais crdito uma situao em que a demanda dispara, enquanto a oferta de produtos fica estagnada. Claramente, a indstria brasileira no est conseguindo competir em preo e qualidade com os produtos importados. As fbricas brasileiras precisam aumentar exponencialmente sua produtividade, e isso no se consegue com mais crdito  que implica mais gastos do governo, maior desequilbrio fiscal e, claro, juros mais altos. 
     Os economistas so quase unnimes em localizar o maior empecilho ao avano sustentvel do PIB no prprio governo. Em particular, nos gastos crescentes, o que obriga o Banco Central a elevar os juros, em um perigoso crculo vicioso. Como a Caixa Econmica Federal (CEF) entra na histria? Por ser um banco estatal de varejo inteiramente controlado pelo governo, a CEF  um dos instrumentos mais acionados da equivocada poltica oficial de aumento do crdito. Desde 2008, a Caixa vem crescendo a taxas superiores a 35% ao ano. Vale lembrar que o crescimento de um banco pode ser medido pelo volume de emprstimos que ele concede. A participao da Caixa no total de crdito disponvel no Brasil triplicou, saltando de 6% para 18%. 
     O risco dessa poltica est no fato de a quantidade de dinheiro liberado pela Caixa ter avanado em uma velocidade muito superior  do aumento do seu capital. Uma anlise da agncia de classificao de risco Austin Rating d a dimenso do desequilbrio. Em 2008, o volume de crdito da Caixa era equivalente a 5,8 vezes seu patrimnio. Em setembro passado, essa relao era de 17,4 vezes. No Ita Unibanco, o maior banco privado do pas, os financiamentos correspondem a cinco vezes o capital. O recomendvel  que um banco empreste at o equivalente a nove vezes o seu patrimnio. Um banco  tanto mais vulnervel quanto maior for o mltiplo do volume de crdito em relao ao capital. Segundo esse critrio, adotado internacionalmente, a Caixa est muito exposta. Mas seus correntistas e poupadores no correm risco. Se a instituio tiver um problema srio de inadimplncia, ter de ser socorrida pelo Tesouro Nacional  ou seja, pelos brasileiros que pagam impostos, no tm nenhuma influncia na gesto de risco do banco estatal e s so chamados na hora de pagar a conta. Por se valer desse privilgio, equivalente  prerrogativa de imprimir dinheiro, a Caixa est na contramo do sistema financeiro. Diz Luis Miguel Santacreu, da Austin Rating: "Os bancos privados avaliaram o cenrio iminente e decidiram ser mais restritivos na concesso de crdito. A Caixa fez a leitura de que, com o recuo dos bancos privados, ela pode ganhar mercado. Aposta tambm que a inadimplncia ficar sob controle. O tempo vai dizer se foi uma estratgia correta". 
     A real situao financeira da Caixa  difcil de ser avaliada porque o banco tem seu capital fechado, ficando livre do grau de transparncia exigido das companhias com aes na bolsa, como  o caso do Banco do Brasil. Tambm diferentemente do BB, cuja administrao  comandada por funcionrios de carreira, na Caixa os principais cargos esto nas mos de polticos do PT ou da base aliada. Seu presidente, Jorge Hereda, foi secretrio em prefeituras petistas no ABC paulista. Um episdio revelador dos riscos a que a Caixa se exps foi a sua associao ao PanAmericano, em 2009. O banco estatal pagou 739 milhes de reais para ficar com 49% das aes do banco. Meses depois, viu-se que o PanAmericano fraudava balanos e tinha um rombo de 4,3 bilhes de reais. Mais recentemente, a direo da Caixa decidiu prorrogar em um ano o pagamento de um emprstimo de 461 milhes de reais contrado pela OSX, a empresa naval de Eike Batista. A OSX entrou com pedido de recuperao judicial dias depois. 
     A despeito de todos os artifcios, no h mais como esconder que o modelo de sustentao da Caixa aumenta o endividamento do governo  e contribui para o crculo vicioso que emperra o Brasil. Alerta Armando Castelar, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundao Getulio Vargas: "Os desequilbrios causados pelo uso poltico dos bancos pblicos chegam muitos anos depois, mas chegam.  preciso transparncia. Os brasileiros tm o direito de saber como o seu dinheiro est sendo usado". 

DINHEIRO PARA TODOS
A Caixa aumentou em mais de 500% a sua carteira de crdito nos ltimos cinco anos.
Emprstimos (em reais)
2008: 71 bilhes
2013: 463 bilhes (aumento de 552%)

RISCO EXCESSIVO
O ndice de alavancagem mede o total de crdito em relao ao patrimnio. Quanto maior o nmero, mais exposto a riscos  o banco.
Mximo recomendvel: 9 vezes

Caixa Econmica
2008: 5,8 vezes
2013: 17,4 vezes

2008
Banco do Brasil  9,2 vezes
Ita Unibanco  5 vezes
Bradesco  4,7 vezes


